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‘Fiquei mais humano ao virar pai’, diz oncologista pediatra de Sorocaba

Gustavo Ribeiro Neves atende crianças com câncer no GPACI.
Pai de adolescente curado, Marcelo Morgan faz músicas para paciente.

Publicado no G1 em 11/08/2013

A paternidade muda as pessoas, diz o ditado. Que vale, em alguns casos, inclusive para o lado profissional. Há pouco mais de uma década atendendo crianças pacientes de câncer em Sorocaba, o médico Gustavo Ribeiro Neves conta que se tornou um profissional melhor depois que virou pai de gêmeos, há quatro anos e meio.

“É claro que isso tem um lado ruim, porque hoje, quando eu atendo uma criança da idade dos meus, isso me traz sofrimento, me sinto mais vulnerável do que no passado. Mas tem o lado bom: eu consigo me colocar mais na posição dos pais e entendê-los melhor em sua angústia. Hoje sei o quanto é duro ter um filho doente. Nesse ponto, eu me tornei mais humano, evoluí como pessoa. E também como profissional, porque quando você se torna uma pessoa mais sensível, aberta ao sofrimento das famílias, você se torna um médico melhor”, afirma Gustavo.

Um dos quatro oncologistas pediatras clínicos do Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil  (GPACI), ele conta que a maior dificuldade é superar o estigma da doença – ainda que, hoje, o número de pacientes curados chegue a 70% dos casos. “O câncer ainda tem uma carga emocional muito forte, um estigma do risco iminente de morte, e é um tratamento que é longo, ocupa muito do tempo da criança e das famílias e traz eleitos colaterais visíveis na parte física. Então, é realmente um trabalho desafiador.’

Há espaço até para o médico virar “avô”, explica Gustavo. Com a evolução da tecnologia, os pais pesquisam tudo sobre as doenças dos filhos, e cabe ao médico filtrar o que realmente é importante e colocar limite na pressão paterna. “Os pais questionam, mas querem ter o aval do médico. Querem que eu ouça e diga que a decisão é minha. Ou seja, acabo agindo como pai dos pais dos pacientes. Os pais são responsáveis, mas não são donos da vida de seus filhos. E na maior parte dos casos não têm o conhecimento técnico para as decisões. Então chega a hora em que eu preciso impor os limites”, diz.

Grande família
Até para reduzir essa carga, o ambiente no hospital é o mais descontraído possível, na decoração dos quartos, na confortável brinquedoteca e na circulação e entrosamento dos pais que acompanham os filhos. Entrosamento esse que muitas vezes continua após a alta da criança. Caso do produtor musical Marcelo Morgan: seu filho único, Leonardo, de 14 anos, já está curado de leucemia – recebeu alta no ano passado, depois de dois anos e meio de tratamento e mais cinco anos e meio de acompanhamento.

“Você para com tudo, faz uma  e o hospital se torna a extensão da sua casa, praticamente se torna a sua casa. Você não consegue cortar o vínculo. No começo do tratamento você vem todo dia, depois dia sim, dia não, uma vez por semana. Você cria um vínculo familiar com os outros pais, se alegra junto com os que se recuperam, sofre com os outros. Você se alegra com a recuperação do seu filho, mas sofre pelos outros, é um vínculo eterno”, conta.

No caso de Marcelo, de fato, um vínculo que não se desfez. Durante o tratamento do filho, ele criou o projeto Música Feliz, que consiste em criar canções e videoclipes biográficos para crianças doentes de câncer. Por meio do site oficial do projeto, ele recebe as informações sobre a vida do paciente, compõe a música e coloca na internet. Tudo de graça.

“A gente não consegue dar conta de todos os pedidos, mas faz o possível, e é meu jeito de lidar com essa sensação de que a minha felicidade nunca é completa. Meu filho está lá, lindo, maravilhoso, curado, mas não consigo vibrar por me lembrar das crianças que ficaram no caminho. Então, criei o projeto para ajudar os outros pais a lidar com esse sofrimento.”

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