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Colaboradores alternam papéis de 'pais' e 'filhos' em asilo de Sorocaba

Lar São Vicente de Paulo tem capacidade para 110 pessoas; hoje, são 97.
Na festa dos pais, neste sábado (10), poucos familiares participaram.

Publicado no G1 em 10/08/2013

Em um asilo de idosos há histórias infinitas e uma curiosa alternância de papéis entre seus moradores e aqueles que os atendem. Ora os cuidadores agem como pais, que zelam pelos menores detalhes: acompanham o lento e cuidadoso andar, servem comida na boca, ajudam a pegar algo que caiu no chão. Em outros momentos, são os filhos carinhosos que ouvem atentamente as histórias em busca de aprendizado.

O Lar São Vicente de Paulo, em Sorocaba (SP), é um desses lugares. Com capacidade para atender 110 pessoas, ele conta atualmente com 97 internos que são atendidos gratuitamente – alguns deles chegam por vontade própria, outros levados pelas famílias.

A casa tem cerca de 100 funcionários e outro tanto de colaboradores voluntários. Vítor Negrini, conhecido como “Cuíca”, é um deles, há mais de 40 anos. Casado pela segunda vez, depois de ficar viúvo, ele está praticamente todos os dias no asilo, do qual já foi o presidente. Conversa com os internos como se fossem velhos amigos, faz piadas, senta para almoçar junto com eles e encarna esse duplo papel com naturalidade.
“Nós somos a família deles. Somos pais, porque temos todo o cuidado com a saúde, a alimentação, o bem-estar. Mas também somos filhos, porque temos muito que aprender com eles”, diz, enquanto puxa papo com os moradores. “Não sei viver sem estar aqui. Faz parte da minha vida”.

Para Cuíca, o trabalho dos voluntários é muito importante, já que acabam fazendo a companhia da família, que muitos não têm no asilo. “Essa questão do abandono é uma realidade dos asilos e não temos como fugir disso. O que temos de fazer é tentar suprir essa ausência com o nosso amor e carinho”, explica Cuíca. Em uma festa realizada neste sábado (11), em comemoração ao Dia dos Pais, cerca de 200 pessoas estiveram presentes no evento, mas, como aponta Cuíca, no máximo 15 dos internos, em uma previsão otimista, receberam parentes. Os demais ssão voluntários.

Outro desses colaboradores é Antonio Galdino de Barros, o “Cura”, que também já foi presidente da entidade e hoje, mesmo sem cargo, continua a frequentar o local todos os dias. “A gente tenta ajudar, fazer de tudo para que eles se sintam bem”, explica, enquanto cobre as costas de dona Maria, a mais velha dos moradores do Lar São Vicente, com 107 anos.

Da Argentina para Sorocaba
A manutenção do Lar São Vicente custa cerca de R$ 150 mil mensais, dinheiro que é arrecadado principalmente com eventos beneficentes, como sorteios e almoços - o próximo deles é uma sardinhada, já tradicional na cidade, neste ano marcada para o dia 7 de setembro. Parte do dinheiro vem do poder público, por meio de emendas de vereadores e do aluguel de um imóvel, no centro da cidade, utilizado pela prefeitura como sede de algumas secretarias.

Os diretores se orgulham de melhorias recentes no local e já sonham com novidades, como a construção de uma sala de cinema para dar mais opções de lazer aos moradores. Cinema que por muitos anos foi o meio de vida de um deles: Adolfo Paz Gonzalez, de 87 anos. Argentino, o que lhe rendeu o apelido de “Maradona”, ele vive no Brasil desde 1951 e chegou ao Lar há dois anos, levado por uma nora.

“No começo não gostei, fiquei meio revoltado. Mas depois fui me acalmando. Aqui é um bom lugar, sou bem tratado. E, na verdade, já não posso querer mais nada da minha vida. Estou no lucro, sempre achei que viveria no máximo até os 51 anos”, conta esse cinegrafista que diz ter trabalhado com várias estrelas do cinema latinoamericano – no Brasil teve sob suas lentes, entre outros, o humorista Mazaropi.

Pioneiro
Ele pode até dizer que tem um Oscar no currículo: esteve nas filmagens de Orfeu Negro, filme do francês Marcel Camus premiado como melhor filme estrangeiro em 1960. “Na primeira passagem deles, trabalhei nas filmagens do Carnaval que aparecem no começo do filme. Depois eles voltaram à Europa e, quando vieram de novo para cá, eu já estava em outro trabalho e não pude participar mais. Mas tem cenas minhas, sim”, recorda.

Adolfo também esteve entre os pioneiros na produção de comerciais de televisão, quando eles passaram a ser gravados. “Ganhava muito mais dinheiro. Tentaram me levar para a TV, fizeram uma proposta, mas não compensava”, conta ele, num espanhol carregado, como se ainda vivesse em Buenos Aires.  Pai de três filhos, ele ainda mantém contato com o mais velho, mas não recebeu a visita no Dia dos Pais porque ele cuida da mãe, que está doente e vive em outra cidade.

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