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No meio do mato, um centro de treinamento de pôquer

Funciona em Cabreúva, a cerca de 90 km de São Paulo, o QG Akkari Team, que oferece cursos voltados ao esporte que movimenta uma indústria milionária

Publicado em Veja.com em 18/05/2013

Campo de futebol, duas piscinas, churrasqueiras, pomar, uma capelinha. É num ambiente bucólico em Cabreúva, a cerca de 90 km de São Paulo, que André Akkari, o brasileiro que encantou o mundo do pôquer ao ser campeão mundial em 2011, prepara seus discípulos e ensina as técnicas do mais novo esporte a movimentar multidões - estima-se que cerca de 2 milhões de brasileiros estejam dispostos a uma partidinha a qualquer momento, em mesas reais ou pela internet. No mundo, são cerca de 65 milhões, segundo números de 2010, e uma movimentação de mais de 6 bilhões de dólares em apostas e premiações.

Esqueça, porém, aquela visão cinematográfica de pôquer como um jogo de azar disputado em salas escuras e enfumaçadas, em meio a copos de uísque, baforadas em charutos e apostas em dinheiro vivo, relógios de pulso ou títulos de propriedade. Hoje o esporte é jogado na rede ou em salões amplos, com vigilância cuidadosa - celulares só são permitidos no intervalo entre as rodadas - e, muitas vezes, diante das câmeras de TV. No Texas Hold’em, a modalidade mais praticada no mundo hoje, já considerada um "esporte da mente" como o xadrez, avalizada pelo governo brasileiro e com uma confederação nacional, os jogos são disputados com fichas, e não dinheiro, e a premiação é de acordo com o resultado, e não com as apostas. Os jogadores são verdadeiros atletas, que se preparam física, técnica e psicologicamente para encarar maratonas de 10 a 12 horas diárias de jogo, com até 24 torneios disputados simultaneamente.

Em abril de 2010, a Federação Internacional de Pôquer foi aceita nos quadros da Associação Internacional de Esportes da Mente, que tem entre seus associados a Federação Internacional de Xadrez. E em janeiro de 2012 passou à condição de esporte pelo Ministério do Esporte, que o define em seu site como “prática de competição em que se exige do praticante inteligência, capacidade, habilidades intelectuais e comportamentais para se obter sucesso”, e conta com a Confederação Brasileira de Texas Hold’em, fundada oficialmente em 2009.

Peneiras - No quartel-general do Akkari Team, onde só se chega por estrada de terra, moram de 10 a 12 jogadores, selecionados em “peneiras” que reúnem até 3.000 candidatos. A primeira triagem é por meio de um gráfico, que mostra o desempenho e a rentabilidade do jogador. Depois, são feitas séries de entrevistas virtuais, pela internet, até que os felizardos sejam escolhidos - inicialmente para um período de testes e, depois, como moradores definitivos. De domingo a quinta-feira, a rotina não chega a ser espartana: acordam tarde, e a primeira tarefa é uma série de exercícios físicos, complementados por uma breve pelada num gramado de tamanho reduzido. Depois do banho, almoço, e... para a sala de jogo - onde 15 computadores, cada um com dois monitores grandes, servem como “campo”. Drogas, bebidas alcoolicas, cigarro e até mesmo petiscos são proibidos. “Da porta para fora, no fim de semana, tudo bem. Aqui dentro, só a nossa comida, não tem chocolate, nem refrigerante, nem salgadinho. Avisamos antes da hospedagem. Dos que estão aqui hoje, três já pararam de fumar”, conta o orgulhoso patrão.

O modelo de Akaari é inspirado em equipes norte-americanas, algumas delas com mais de 300 jogadores, que se reúnem em casas e até mansões para treinar e jogar. O brasileiro antes mantinha seu time num sistema parecido, em um sobrado no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, mas Akkari decidiu mandar todo mundo para o interior para diminuir a inteferência externa e deixar os atletas focados só no jogo.

Os jogadores alternam dias de treinos e estudos, com análises de partidas anteriores, com torneios, às vezes 50 num dia só. Não há salário: Akkari banca todas as despesas: hospedagem e alimentação no QG, inscrições para os torneios, verbas para jogar no exterior, em troca de uma porcentagem na premiação. O dinheiro para manter o QG, Akkari tira de seus prêmios, palestras para executivos e de cursos intensivos de pôquer, como o que será realizado no próximo fim de semana. São vagas limitadas, 30, e para quem pode pagar 3.000 reais – em geral praticantes de fim de semana, dispostos a dar o salto para o profissionalismo, e homens maduros, próximos da aposentadoria, que podem dispensar uma boa quantia apenas pelo prazer de jogar e aprender algumas técnicas para, como o próprio Akkari diz, “não passar vergonha”. Os cursos são uma rara oportunidade de ver cartas circulando pelo centro de treinamento: os moradores treinam apenas com computadores, e somente entre as visitas é que rola um joguinho para espairecer, no intervalo entre as aulas, na única mesa de pôquer do lugar. “O pessoal que fica aqui é proibido de mexer”, brinca Akkari.

Nada de sorte - Conseguir um royal straight flush, a seqüência de cartas que vai do 10 ao Ás, todas do mesmo naipe, equivalente a um gol de bicicleta ou cesta de três pontos no basquete? Bobagem. “Acho que fiz uns dois ou três desses na minha vida”, conta Akkari. A principal técnica que ele tenta ensinar é que a sorte tem influência zero no resultado do pôquer. Sim, é um jogo de baralho, em que os jogadores recebem as cartas ao acaso, mas isso, garante o campeão, pouco faz diferença. “Não jogo com as cartas, jogo com as pessoas. A grande técnica do pôquer é identificar os padrões de comportamento dos outros jogadores e aplicar isso dentro de cada rodada da partida.” Ou seja, como no xadrez, o que conta é a estratégia. É preciso saber a hora certa de apostar alto, de parar, de blefar e até mesmo de perder o menos possível, para tentar recuperar as fichas na rodada seguinte. “Se eu jogar uma mão contra um iniciante, a chance que eu tenho de vencer é de 50%. Se jogarmos 100 vezes, esse número sobe para 80%. Se forem 1.000 partidas, é impossível um novato me vencer. Mesmo que eu tenha sempre as piores cartas, a técnica vai me fazer levar a melhor sempre.”

Esses padrões de comportamento são os mais curiosos possíveis, e diferem dos jogos reais para os virtuais. “O jogador ganancioso sai com uma mão boa e a primeira coisa que ele faz é olhar para as suas fichas, de olho no que vai conquistar. A pessoa mais ansiosa muda a respiração, o olhar. Na internet, você consegue identificar como está a mão do adversário pela rodada em que ele costuma apostar, pelo tempo de reação e pelas partidas anteriores, que podemos acessar enquanto jogamos. É como futebol e futsal.” Essas estatísticas, completíssimas, apontam quando cada jogador resolveu aumentar a aposta ou desistir, e são o lado matemático das técnicas do pôquer. Pela reação, é possível tentar adivinhar quais as cartas que ele tem na mão – no Texas Hold’Em, cada jogador recebe duas cartas e forma seus jogos com outras cinco que são colocadas na mesa e podem ser usadas por todos. Vence quem tiver a melhor combinação possível entre cinco das sete cartas possíveis.

Ou não. Uma estatística feita por uma consultoria americana depois de analisar mais de 100.000 partidas em grandes torneios apontou que apenas 24% das rodadas vão até o fim e são vencidas por quem tem a melhor combinação. Três de cada quatro mãos acabam antes do fim, na pura estratégia, em apostas altas que são recusadas. “Como disse, não jogamos com as cartas. Especialmente na reta final dos torneios, em geral as partidas são decididas assim. Você tem de convencer o adversário que as suas cartas são melhores que as dele, que você vai ganhar. É assim que funciona”, diz Akkari. Assim, não basta só o conhecimento matemático: é preciso conhecer as técnicas de jogo e ter um quê de psicanalista à mesa. “O matemático Oswald de Souza adora pôquer, já encontrei com ele em torneios. Sabe muito de matemática, mas jamais ganhou um torneio.”

São essas técnicas que Akkari tenta transmitir não apenas aos seus discípulos do pôquer profissional e aos alunos especiais, mas aos executivos que o contratam para palestras de motivação, em que mostra a semelhança de estratégia entre o pôquer e o mundo dos negócios. E detecta entre os empresários brasileiros, de todos os tamanhos, a aversão ao risco e o medo de investir. “No pôquer, para ganhar, é preciso abrir mão de alguma coisa. Você arrisca, aposta 100 para tentar ganhar 200, mas precisa estar disposto a perder temporariamente aqueles 100, se for o caso, para recuperá-los depois. Não existe ganho sem risco, e tento mostrar que vale a pena tentar se libertar dessa aversão, desse sentimento de perda.” Para ele, no jogo e na vida, é preciso sempre tomar a iniciativa. “Quem tem mais chance de ficar rico: quem emite boletos ou quem paga boletos? Estou emitindo os meus."

Eduardo Biermann/Veja.com

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