Pular para o conteúdo principal

Debaixo de chuva, o show do rodeio não pode parar

Rodrigo Antonio/Veja.com
(Não foi publicada. Deveria ter entrado no ar em Veja.com em 17/04, na sequência da outra matéria, mas acabou perdendo espaço por causa dos atentados em Boston)

A chuva intermitente que caiu durante todo a sexta-feira sobre Londrina, alternando-se entre a leve garoa e a tempestade tropical de filme, é motivo de preocupação, mas não de desânimo. “Vai dar. Não é o cenário ideal, o touro não se sente bem no meio da água, pode escorregar, mas não podemos frustrar os fãs. Claro, se não tiver condições, se for perigoso para o animal, adiaremos. Mas, do jeito que está, podem ficar tranquilos, vai ter rodeio”, explica o veterinário Marcos Sampaio de Almeida Prado, o Dr. Kiko, como é conhecido nos bastidores de um evento da Professional Bull Rider (PBR), a organizadora da principal competição de montaria em touro no país. É noite de sexta-feira, faltam menos de duas horas para começar a etapa no norte paranaense e a equipe de VEJA acompanhou os bastidores da competição que tenta se firmar como um esporte radical – “o esporte dos oito segundos” é a definição, em referência ao tempo em que o peão deve permanecer no touro para que sua nota seja válida.

Não se trata de uma prova de resistência: assim que o peão consegue completar os oito segundos, uma sirene ecoa na arena e ele deve pular do touro o mais rápido possível, enquanto três salva-vidas dividem a tarefa de distrair o bicho, que pesa mais de 700 kg, e leva-lo de volta aos bastidores do evento, onde 15 pessoas se revezam para guardá-los de volta nos cercados individuais. Vence aquele que mostrar melhor postura em cima do touro, conseguindo manter o garbo e a elegância – e quanto mais o touro pular e sacolejar, melhor. Quatro jurados são as notas, divididas entre as “atuações” de atleta e touro. Após três etapas preliminares, os peões que somarem as melhores notas vão para a decisão. O vencedor leva o prêmio principal, que pode chegar a R$ 80 mil. O dono do melhor touro durante todo o evento também é premiado. Mas não é como no hipismo, em que a avaliação é conjunta e o entrosamento entre homem e animal é fundamental. “No rodeio os touros são sorteados e o atleta não vai montar o mesmo touro no mesmo evento. Pode acontecer de encontrá-lo de novo numa outra etapa, mas em cada cidade isso só acontece uma vez. E é uma competição: quanto melhor a nota do peão, menor a do touro, e vice-versa”, explica Paulo Crimber, o chefe dos juízes. Ex-peão, com vitórias em dezenas de rodeios famosos, inclusive em Barretos, e participações nos Estados Unidos, a grande meca do esporte, ele deixou as arenas em 2010, depois de sofrer uma grave lesão no pescoço após uma queda. Em Londrina, o melhor touro da primeira noite foi Bipolar, que mandou para o chão o veterano João Paulo Sales, campeão de Barretos. Entre os peões, levou a melhor Francis Dezembro, que dominou o touro Problema.

Mas a festa não é só quando o peão monta em cima do touro e a porta do brete se abre. Primeiro há música, barulho, rojões, sinalizadores, fumaça de gelo seco e até fogo, feito com gasolina colocada no chão, no formato das letras "PBR". A chuva que deu uma estiada e secou a arena, na hora anterior, se torna novamente uma tempestade, apaga rapidamente o proposital incêndio e poças se formam em frente aos bretes – o pequeno cocho de 4 metros de comprimento por um de largura em que o peão se senta sobre o touro antes de começar a prova. Enquanto os animais são posicionados, o dono da festa é Rafael Vilella, um peão que não se deu muito bem na montaria, mas, com voz grave e muita animação, transformou-se na voz oficial dos rodeios. O tradicional “seguuuuura, peão”, porém, não tem espaço: em meio ao revezamento de músicas, que vai dos hits sertanejos do momento a clássicos do hard rock, ele pula pela arena, brinca com o público (cerca de 20 mil pessoas que encheram o local), faz piadas com o sotaque local e comanda uma espécie de karaokê. O ritmo é frenético: nenhuma música dura mais de 15 segundos e, quando o público vai se acostumar, outra já é executada por um DJ que, do alto do palco, escolhe as canções entre milhares disponíveis num laptop.

Enquanto isso, nos bastidores, os peões arrumam suas cordas americanas, que serão colocadas em volta do tórax do touro e são o único contato permitido entre o peão e o animal – se ele encosta no pelo do bicho antes dos oito segundos, a apresentação é anulada. Eles passam breu para fixar bem a mão, enquanto tentam se concentrar e completam o ritual de se vestir – colete sobre a camisa vermelha e calça de montaria, cheia de franjas, sobre os jeans. Alguns rezam, outros visitam o fisioterapeuta Gustavo Martins de Oliveira, que atende os competidores em fila - coloca uma faixa adesiva na barriga de um, um curativo em outro e assim vai. O regulamento é rigoroso: o peão deve comunicar uma contusão na véspera e não pode desistir em cima da hora, depois de saber que vai enfrentar um ou outro touro mais nervoso. “Se isso acontece eles são multados, então o pessoal leva esse cuidado muito a sério”, diz Oliveira, que fica à disposição dos peões durante todo o dia e faz tratamento com gelo e massagem. “São atletas. Como qualquer atleta, convivem com dores, lesões, e a gente tem que cuidar deles”, explica o fisioterapeuta.

É uma vida dura, que começa cedo. João Donizete, o Curió, aprendeu a montar quando era ajudante de fazenda em São José dos Campos, no interior paulista, durante a adolescência. Começou em pequenos bezerros, acostumou-se aos touros maiores e, aos 16 anos, já tinha ganhado seu primeiro prêmio, duas motos. Aos 35, depois de muitas vitórias e participações de sucesso nos Estados Unidos, a meca do esporte, ele já conta os anos para se aposentar. “Eu me cuido, não bebo, não fumo, faço exercícios, mantenho a forma. Acho que posso competir num bom nível até os 40 anos. Depois, paro e vou ficar com a minha família”, diz o peão, que hoje tem sua própria fazenda.

A disciplina é rígida. “Aqui no brete não se bebe bebida alcoolica e nem se fuma. O pessoal da PBR tem que trabalhar de camisa de manga comprida e chapéu. O peão, no hotel, é multado se sair do quarto sem camisa. Temos que dar exemplo de postura e profissionalismo. Isso é um ambiente familiar e é assim que seremos sempre”, avisa o Dr. Kiko, responsável pelo bem-estar dos touros e espécie de “paizão” obedecido por todos.  Do lado de fora, a torcida comemora: o peão da casa, Edgar Lázaro de Oliveira, consegue domar o touro e se mantém vivo na briga pelo título. No último peão, uma surpresa: o bicampeão brasileiro, Edevaldo Ferreira  da Silva, não consegue se segurar e cai no meio da lama. O público se surpreende, depois aplaude touro e campeão, e ainda leva uns 10 minutos depois que a competição termina para arredar pé das arquibancadas, ainda sob chuva forte. Fim do espetáculo, mas no dia seguinte tem mais. E, dali a duas semanas, os peões estarão em outra cidade, fazendo o mesmo espetáculo. O circo do rodeio não pode parar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

De Votorantim a Miami, Gustavo quer conquistar o mundo com o balé

Dançarino ganhou bolsa para estudar por um ano em academia americana. Aos 19 anos, ele trabalha como professor e sonha em viver da dança. Publicado no G1 em 24/08/2013 Gustavo Pacheco sabe o que quer da vida desde os 13 anos: ser bailarino clássico. Aos 19, depois de muitos saltos e exercícios, está prestes a dar um passo importante para realizar o sonho. Na próxima semana, o jovem morador de Votorantim (SP) embarca para os Estados Unidos, onde vai passar um ano treinando, estudando, dançando e saltando. Ele será aluno bolsista na Miami City Ballet, uma das academias mais promissoras do país. Ganhou a chance depois de um curso de verão de cinco semanas, do qual participou no mês passado, com todas as despesas pagas, após ser selecionado em audições realizadas em São Paulo. “Acho que fui bem, né? Sabia que nem todos os estudantes do curso de verão seriam selecionados para estudar o ano inteiro, então, desde o começo avisei a eles que eu tinha interesse. Depois de alguns dias...

No QG de Cabreúva, dois jovens candidatos a astros do pôquer

Rodrigo Crespo e Pedro Padilha trilham o caminho aberto por André Akkari em busca dos milhões Publicado em Veja.com em 18/05/2013 Rodrigo Crespo se preparou durante toda a adolescência para acompanhar os negócios do pai, empresário de setor de tecnologia da informação. Classe média alta, preparou-se nos melhores colégios e entrou no curso de Economia da Fundação Getúlio Vargas, faculdade das mais conceituadas do ramo, para colaborar na gestão da empresa familiar - mas largou tudo para ser jogador de pôquer. Aos 23 anos, quatro deles integralmente dedicados ao esporte das cartas e fichas, ele não se arrepende. “Não penso em voltar à faculdade. Se estivesse lá hoje, não estaria feliz. Aqui tenho tudo que quero, estou no lugar perfeito.” Há dois meses é um dos moradores do centro de treinamento de pôquer criado pelo campeão mundial André Akkari em Cabreúva, no interior paulista. Crespo é um dos jogadores prediletos de Akkari, juntamente com Pedro Padilha, de 26 anos: são seus princ...

Trapalhada na Europa transforma Dante em boa opção para Mano

Christof Stache/AFP Zagueiro quase jogou pela Bélgica, e torce para ser lembrado pelo técnico da seleção brasileira Publicada no R7 em 09/08/2011 Desconhecido no Brasil, o zagueiro Dante faz sucesso na Alemanha, com a camisa do Borussia Moenchengladbach, e espera um dia repetir o feito do compatriota Luiz Gustavo, que nesta quarta-feira (10) pode fazer sua estreia pela seleção brasileira no amistoso contra a Alemanha, em Stuttgart.  Aos 27 anos, ele vive na Europa desde 2004, quando deixou o Juventude, que à época ainda estava na Série A do Brasileiro, para jogar no Lille, da França. Depois de dois anos, foi para a Bélgica, onde se destacou no modesto Charleroi e se transferiu para o Standard Liège, um dos principais clubes do país. Depois de uma trapalhada na hora de se tornar belga, ele aparece como boa opção para Mano Menezes. No meio do processo para se naturalizar, à espera de uma chance na seleção da Bélgica, ele deixou o país e foi jogar no Borussia Moen...